Acervo · Memória dos movimentos
Acervo on-line reúne 184 zines anarquistas, de Malatesta e Emma Goldman a guias de organização comunitária
Arquivo espelha biblioteca pública do GitHub, tem acesso restrito a maiores de 18 anos e aviso legal que repudia incitação ao crime.
Uma biblioteca com 184 zines e panfletos anarquistas, em inglês e prontos para imprimir, foi colocada no ar em outubro no endereço iuripiragibe.net/anarquia. O acervo reúne desde textos clássicos de Errico Malatesta, Emma Goldman e David Graeber até manuais práticos de organização comunitária, e se apresenta como um arquivo de “memória dos movimentos” voltado a pesquisa, estudo e jornalismo.
O material não é inédito: é um espelho, sem alterações, das pastas “Basic Intros” e “Guides” do repositório público rechelon/zine_library, no GitHub, copiadas em 5 de outubro de 2026. A página registra a versão exata usada (commit 47beb5b) e indica um canal para pedidos de remoção.
O que tem no acervo
O arquivo se divide em dois blocos. O primeiro, com 38 títulos, reúne introduções ao pensamento anarquista: Anarchy e Towards Anarchy, de Malatesta; Anarchism: What It Really Stands For, de Goldman; Are You An Anarchist?, de Graeber; os dois volumes de Anarchy Works, de Peter Gelderloos; além de textos sobre trabalho, democracia, polícia e abolição prisional.
O segundo bloco, com 146 títulos, é formado por guias práticos. Boa parte trata de organização de base — como montar uma assembleia de bairro, organizar os moradores de um prédio, facilitar reuniões ou criar um grupo de estudos —, de redes de apoio a pessoas presas, de primeiros socorros em atos e de segurança digital, com manuais sobre mensagens criptografadas e sistemas operacionais voltados à privacidade.
A publicação não constitui endosso, recomendação, incentivo ou instrução para a prática de qualquer conduta.
Aviso legal e acesso restrito
O acesso é precedido de um aviso legal extenso, que o visitante precisa aceitar. O texto invoca a liberdade de expressão, de informação e de imprensa garantida pela Constituição (art. 5º, incisos IV, IX e XIV, e art. 220), afirma que o acervo tem “finalidade exclusivamente documental” e declara que o responsável “repudia expressamente qualquer ato ilícito, violência ou dano a pessoas e patrimônio”, citando os artigos 286 e 287 do Código Penal, que tratam de incitação e apologia ao crime.
O próprio aviso reconhece que parte do conteúdo “descreve condutas que podem ser ilegais no Brasil ou em outros países” e ressalva que “conhecê-lo não autoriza praticá-las”. O acesso é restrito a maiores de 18 anos, e a página não é indexada pelos buscadores.
Por que um arquivo como esse importa
Zines — publicações curtas, baratas e feitas para circular de mão em mão — são há décadas um dos principais suportes da cultura política autônoma. Muitos dos textos reunidos no acervo foram escritos anonimamente e circulam fora das editoras e das bibliotecas tradicionais, o que torna sua preservação frágil. Reunidos e catalogados, viram fonte para quem estuda movimentos sociais, história política e cultura gráfica independente.
O debate sobre os limites entre documentar e incentivar não é novo, e o acervo assume essa tensão de forma explícita: reproduz os textos tal como circulam publicamente e transfere ao leitor a responsabilidade por cumprir as leis do seu país.
Nota de transparência: o acervo é mantido pelo jornalista Iuri Piragibe, que tem vínculo com o Mosca.